Contexto

As condições precárias de habitação de algumas regiões brasileiras são assunto presente no nosso contexto social desde o final do século XIX, quando surgiram as primeiras favelas. Dados históricos apontam que após o fim da Guerra dos Canudos, soldados que retornaram das missões militares passaram a habitar em terrenos cedidos pela Marinha, em condições precárias de habitação. Mas foi somente entre as décadas de 1940 e 1980 que o processo de “favelização” se intensificou e, principalmente devido à intensificação da economia brasileira, explosão demográfica decorrente das quedas na taxa de mortalidade e urbanização da população, o número de pessoas com moradias precárias cresceu exponencialmente.

 A Associação Brasileira de Incorporações Imobiliárias (ABRAINC) em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), publicou em 2018 o relatório “Análise das Necessidades Habitacionais e suas Tendências para os Próximos Dez Anos”, onde estimou o déficit habitacional do país no ano de 2017 em 7,77 milhões de unidades, sendo 12,4% desse número devido a habitações precárias. Habitações são classificadas como precárias por serem edificações improvisadas ou rústicas.

Tabela 1 – Déficit Habitacional e seus Componentes – 2017
Fonte: ABRAINC, 2018

Ter acesso a boas condições de habitação não é uma condição dispensável, trata-se de um fator essencial à prevenção e combate de determinadas patologias. A Fiocruz afirmou em reportagem da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio que cidades carentes de habitações saudáveis são as mais impactadas por doenças que se alimentam da desigualdade social. Edificações com fechamento impróprio podem não garantir o isolamento térmico adequado e com isso favorecer o contágio de doenças respiratórias como gripes e resfriados. O professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), especialista em saneamento e controle ambiental, Alexandre Pessoa, destaca também outros problemas de saúde relacionados às condições de moradia, como a doença de chagas, zika vírus, chikungunya e febre amarela.

Imagem 1 – Famílias Atendidas pelo Programa Municipal de Habitação de Curitiba
Fonte: Prefeitura de Curitiba, 2014

A importância pelo direito à habitação digna é reconhecida pela comunidade internacional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a habitação o fator ambiental de maior impacto no que diz respeito a doenças e ao aumento das taxas de mortalidade e morbidade. Por esse motivo, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu em 1978 um Programa para Assentamentos Humanos, o ONU-Habitat. A agência busca cooperar com governos, universidades e instituições do terceiro setor em temas relacionados à vida nas cidades. No âmbito governamental, os governos federal, estadual e municipal estabelecem políticas de habitação, como o Programa Minha Casa, Minha Vida e COHABs, com o intuito de facilitar o acesso à moradia adequada e reduzir o déficit habitacional. Apesar desses esforços, uma parcela significativa da população não se beneficia dessas iniciativas e permanece em condições precárias de habitação. É por esse motivo que o terceiro setor precisa agir e implementar medidas de mitigação com o intuito de preencher essas lacunas e permitir que todos tenham acesso a condições mínimas de habitação.

Funcionamento e Benefícios

Edificações de madeira, pela simplicidade construtiva e baixo custo dos materiais (muitas vezes coletados ou reaproveitados ao invés adquiridos), são comumente encontradas entre famílias em condições de vulnerabilidade social. Do ponto de vista estrutural, atendem à finalidade de servir de abrigo aos residentes. No entanto, muitas vezes possuem baixo desempenho térmico e favorecem o surgimento de insetos. Uma forma simples, eficaz e sustentável de mitigar esses problemas é revestir as edificações com mantas térmicas de papel cartonado (material das embalagens de leite longa vida – Tetra Pak). A medida tem como principais objetivos:

  1. Reduzir a incidência de doenças causadas pelo frio ou insetos (ex: doenças respiratórias, gripes, resfriados e hipotermia).
  2. Reciclar papel cartonado que potencialmente seria destinado a aterros e lixões ou descartado de maneira inadequada.

Embalagens cartonadas são ideais para forros isolantes térmicos, pois são formadas por cerca de 5% de alumínio, 20% de plástico e 75% de papel cartão, dispostos em camadas intercaladas. O papel cartão, material predominante no conjunto é bastante resistente e garante a estabilidade estrutural da manta. O plástico, polietileno de baixa densidade, impede o contato da umidade do ar ou de água e outros líquidos com o papel, além de garantir a adesão entre as camadas de papel cartão e alumínio. Por fim e mais importante, o alumínio tem por finalidade impedir a entrada de luz e garantir o isolamento térmico.

Imagem 2 – Camadas do Papel Cartonado (Tetra Pak)
Fonte: Ecolife Tetra Pak

As caixas de papel cartonado adquiridas devem ser acondicionadas antes de se tornarem revestimento e vedação das moradias. O primeiro passo consiste em cortar a caixa verticalmente de maneira a abrí-la e remover partes não uniformes, como tampa e fundo. O resultado dessa etapa é uma folha retangular de papel cartonado. Em seguida, o material deverá ser higienizado com água e sabão para a remoção de resíduos orgânicos. Feito isso, basta colocar os painéis limpos para secar e o material está pronto para ser aplicado. As folhas devem então ser unidas umas às outras por meio de grampos ou costuradas para que venham a revestir paredes e teto de edificações de madeira.

Imagem 3 – Aplicação das Placas nas Paredes
Fonte: ESF Núcleo Santa Maria, 2018

O interessante desta metodologia é que embalagem pode ser utilizada para conforto térmico tanto em locais de temperaturas elevadas (sendo utilizada para refrescar a casa) quanto em locais frios (com a finalidade de aquecer a moradia). Isso porque quando a placa feita com a embalagem Tetra Pak é colocada na parede externa da casa ela é capaz de refletir as ondas quentes de calor e os raios de sol, mantendo o clima interno da casa mais ameno pois impede a entrada de boa parte do calor. Já em locais frios as embalagens são utilizadas na parte interna da casa, assim o calor de dentro da casa não é perdido para o exterior e fica retido na residência, trazendo maior conforto para os moradores, principalmente no inverno.

Além do conforto proporcionado aos beneficiários, a reciclagem de embalagens Tetra Pak é uma iniciativa inclusiva e sustentável. Em 2018, a taxa global de reciclagem informada pela empresa foi de 26% de todo o material produzido. O crescimento do consumo e alta complexidade na reciclagem das embalagens, devido à combinação de diferentes materiais, impõe um desafio adicional no quesito sustentabilidade. O reaproveitamento das embalagens como isolamento para moradias ajuda a contribuir para o aumento da taxa de reutilização e evita que o material seja disposto de maneira inadequada na natureza ou contribua para o esgotamento dos aterros sanitários.

Atuação dos Engenheiros Sem Fronteiras

Sabendo das duas faces e versatilidade do uso das embalagens de Tetra Pak para o revestimento de casas a rede Engenheiros Sem Fronteiras já possui diversos projetos para melhoria da das moradias de norte a sul do país. Até hoje já foi replicado pelos núcleos de Santa Maria (RS), pioneiro no uso das embalagens dentro da rede ESF, Porto Alegre (RS), Rio Grande (RS) e Porto Velho (RO).

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Conhecido como projeto “Morar Bem” o uso das mantas de Tetra Pak possibilitam maior dignidade aos seus moradores pois o efeito deste tipo de projeto ultrapassa as finalidades de engenharia em si, trazendo também a retomada da auto estima dos beneficiados por ele. Isso porque o cuidado com a casa e o ambiente que se vive é um fator muito importante para que uma pessoa se sinta bem com ela mesma e perceba que aquele lugar pode ser chamado de lar.

A vedação das frestas, recobrimento da parede com as mantas de embalagens são de fato uma engenharia simples e eficiente para pessoas de baixa renda, o que o ESF faz é mostrar para as pessoas que tal engenharia está dentro do alcance delas e, quando elas são inseridas durante a execução do projeto, é possível então repassar o conhecimento e mostrar que suas ações também fazem parte da melhoria na casa, trazendo grande satisfação tanto para moradores quanto para voluntários.

Imagem 4 – Manta de Tetra Pak sendo colocada em uma casa do Rio Grande do Sul (RS)
Fonte: ESF – Rio Grande

Essa mudança de “clima” foi percebida e relatado pelos voluntários que, ao retornarem para o local para finalização do projeto, notaram uma melhor receptividade dos moradores, maior simpatia e até alegria em poder receber as pessoas em casa e tê-la em condições menos precárias para viver.

Ao promover projetos como Morar Bem o ESF-Brasil busca estar alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, neste caso mais especificamente ao objetivo número 11 que consiste em tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Assim percebe-se que não são necessárias grandes obras ou investimentos para realizar pequenas melhorias que fazem toda a diferença para os moradores de um local que antes não era capaz de dormir devido ao frio (ou calor) e agora pode descansar de maneira mais adequada, além de poder passar o dia sob melhores condições de temperatura dentro de casa. Com ações simples e materiais convencionais é possível contribuir para combater dois grandes desafios da realidade do país: o déficit habitacional e a geração de resíduos. Faça parte do movimento e apoie a rede dos Engenheiros Sem Fronteiras!

Imagem 5 – Aplicação das placas de Tetra Pak em uma moradia de Porto Alegre
Fonte: ESF – Núcleo Porto Alegre, 2018
Autores

Principal: Vitor Vinicius Cotta Rodrigues
Mariana Martins Gomes
Anna Beatriz de Aguiar Bergo Coelho

Referências