O Brasil é conhecido por por possuir as maiores reservas de água potável do mundo. Segundo o World Atlas (“Which Country Hasthe Most Fresh Water?“), o país detinha em 2014 cerca de 8,2 mil km³, quase o dobro da quantidade disponível na Rússia (segundo colocado). Apesar disso, desde de meados de 2014 diversas regiões do Brasil vem sendo assoladas pela falta d’água em estações secas, o que antes era uma realidade mais latente do nordeste do país é atualmente uma preocupação constante também de grandes centros econômicos e políticos, como São Paulo e Brasília. Os períodos de escassez pelo qual o país atravessou chamaram a atenção de veículos de informação internacionais, como The Economist (Water in Brazil – Nor any drop to drink | The Americas), The Guardian ( Brazil’s worst drought in history prompts protests and blackouts) e World Bank ( Brazil may be the Owner of 20% of the World’s Water Supply but it is still Very Thirsty).

Reservatório da Barragem do Rio Jacareí, Parte do Sistema Cantareira (The Guardian, 2015).

Sabendo que a água é um recurso essencial para vida humana e para diversos setores da economia, várias alternativas têm sido exploradas para que se possa suprir a carência de água de qualidade nos rios e mananciais do país. Uma excelente alternativa, de fácil replicabilidade e que permite o melhor aproveitamento desse recurso natural é o sistema de Captação de Água da Chuva, ou Cisternas. Segundo o Portal Tratamento de Água (Captação de água da chuva gera economia de até 55%; veja potencial do seu telhado), sistemas de captação de águas pluviais podem gerar economia de até 55% nas despesas com o fornecimento de água. As soluções de reaproveitamento de água da chuva vem ganhando relevância nacional nos últimos anos, sendo objeto de políticas nacionais de incentivo, como a lei 13.501/2017, que estimula a criação de legislações estaduais e municipais sobre o tema.

Funcionamento e Benefícios do Sistema

Diante do contexto de escassez e mudanças climáticas, a ONG Engenheiros Sem Fronteiras desenvolveu e implantou sistemas de reaproveitamento de água pluvial que consistem em reservatórios de baixo custo utilizados para captar, armazenar e conservar a água da chuva que escoa pelos telhados e calhas, garantindo assim o reuso desta água de forma mais direta e econômica. Tubos de PVC são conectados às saídas das calhas, direcionando a água recolhida pelo telhado da edificação para um filtro, que tem como objetivo remover materiais de grande dimensão, como folhas, galhos e resíduos sólidos presentes nos telhados. A primeira água da chuva eventualmente contém resíduos particulados, como poeira e sedimentos, sendo então direcionada ao dispositivo de descarte. Descartado volume inicial coletado, a água é direcionada para cisternas de armazenamento. O reservatório conta ainda com ladrão, tubo extravasor que permite o descarte do volume excedente, e dispositivo redutor de turbulência, que tem como objetivo reduzir a turbilhonamento e proliferação organismos.

Croqui de Sistema de Captação de Água da Chuva Implantado pelo ESF (ESF, 2019).

A água coletada pela cisterna é de boa qualidade e pode ser utilizada para fins não potáveis como limpeza, jardinagem, irrigação e até mesmo para uso como descarga de vaso sanitário.

Apesar do processo de filtragem, o sistema não é recomendado para uso potável por não possuir tratamento ou desinfecção adequados para tal fim. Sendo assim, a captação de água da chuva é uma alternativa para escolas, centros comunitários, casas e edificações de uso coletivo economizarem a água potável vinda do sistema de saneamento da cidade. O custo do projeto varia conforme a capacidade de armazenamento, tipo do reservatório e comprimento da tubulação. No entanto, se forem utilizados materiais alternativos como bombonas e filtros construídos artesanalmente (SempreSustentavel), o custo total de implantação pode ser inferior a R$ 500,00, o que torna a solução acessível e economicamente viável.

Os principais benefícios gerados por esse sistema, quando instalados, são: incorpora conceitos de educação ambiental na comunidade que está inserido; é de fácil instalação e de baixo custo; auxilia o combate da crise hídrica; diminui a demanda do recurso hídrico para o tratamento de água; possibilita uma economia de até 55% no valor da conta de água mensalmente; evita a proliferação do mosquito Aedes aegypti e ajuda no combate a enchentes.

Sistema de Captação de Água da Chuva Implantado pelo ESF-SP (ESF, 2019).
Atuação dos Engenheiros Sem Fronteiras

Sabendo de todas as vantagens citadas anteriormente e com o objetivo de minimizar o efeito da crise hídrica no país, a rede Engenheiros Sem Fronteiras realiza projetos de captação de água da chuva em todas as regiões do Brasil, tendo início nos Engenheiros Sem Fronteiras – Núcleo Viçosa, no primeiro semestre de 2017. A cidade de Minas Gerais, assim como boa parte da região sudeste, enfrentou diversas consequências devido à falta de água nos dois anos anteriores. Desde então, o projeto tem sido realizado por diversos núcleos, seja para gerar economia de água, reduzir custos ou trazer uma alternativa mais sustentável para o local. Sabendo que a água é um direito humano fundamental a todos e que o acesso a ela está alinhado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU e do Engenheiros Sem Fronteiras – Brasil, acredita-se que os sistemas de captação de água da chuva tem muito a contribuir para o uso racional da água e para sustentabilidade no local em que é instalado.

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O projeto de captação de água da chuva além de sustentável também possui um alto grau de replicabilidade, sem a necessidade de mão de obra especializada e fazendo uso de materiais de baixo custo. As cisternas podem ser instaladas em praticamente qualquer local que tenha uma estrutura básica de captação (telhados e calhas) e um local para abrigar a cisterna. Baseado nos projetos já executados, o tempo de projeto (desde o planejamento até execução) dura em média cerca de 3 meses, podendo sofrer variações de acordo com o local de implantação, dimensionamento do sistema, arrecadamento de capital, planejamento e outros fatores externos. Para manter os custos, prazos e qualidade dentro do planejado, o Engenheiros Sem Fronteiras faz uso de metodologias de gerenciamento de projetos baseadas no PMBOK (PMI) e PMDPro (APMG International).

O projeto é dividido nas etapas de planejamento, escolha e preparo do local a ser implantado o projeto, elaboração da planta baixa, arrecadação de capital para compra de materiais, execução e instalação do sistema de captação de águas pluviais, e a educação para a sociedade (visando melhorar a conservação e a consciência ambiental desta).

A execução consiste na instalação da tubulação e cisterna que, juntas, transportam e armazenam água recolhida pelo sistema de drenagem pluvial (telhado e calhas). São instalados dispositivos auxiliares ao longo da tubulação, como filtro e reservatório de descarte. O filtro tem o intuito de reter folhas, galhos, insetos e outros materiais sólidos que são carreados pela água da chuva. A “primeira água da chuva” é coletada pelo reservatório de descarte e deve ser rejeitada devido à grande quantidade de impurezas não retidas pelo filtro, como poeira, sedimentos e fezes de animais. Após encher o descarte, a água é encaminhada então para a cisterna, onde fica armazenada para uso posterior. Por fim, é necessário a adição de cloro ou água sanitária, que funciona como um agente desinfetante evitando a proliferação de microorganismos e mosquitos.

A educação para a sociedade é a etapa final de implantação do projeto e tem como principal objetivo conscientizar a população acerca da importância e necessidade em economizar água, além de explicar o funcionamento do sistema e transmitir orientações para manutenções periódicas. Essa etapa possui especial importância, uma vez que os Engenheiros Sem fronteiras prezam pelo engajamento com a sociedade, preocupando-se sempre em envolver a sociedade durante o planejamento, execução e no pós projeto, melhorando o entendimento por parte dos beneficiários e trabalhando aspectos importantes como educação e sustentabilidade.

Acredita-se que o projeto de captação de água da chuva é uma excelente alternativa em diversos aspectos, trazendo benefícios ambientais e educacionais para as localidades onde é inserido. Considerando o baixo nível técnico necessário para sua execução pode se tornar uma excelente opção não só para aqueles que sofrem com a crise hídrica em épocas de seca, mas também que buscam uma economia financeira no consumo de água ou até mesmo tornarem suas comunidades mais sustentáveis.

Abaixo temos projetos executados por alguns Núcleos da Organização:


Autores

Victória Abrahão
Anna Beatriz Bergo
Mariana Gomes
Vitor Rodrigues

Referências

https://www.worldatlas.com/articles/countries-with-the-most-freshwater-resources.html
https://www.economist.com/the-americas/2014/04/26/nor-any-drop-to-drink
https://www.theguardian.com/world/2015/jan/23/brazil-worst-drought-history
http://www.sempresustentavel.com.br/hidrica/minicisterna/minicisterna.htm
https://www.worldbank.org/en/news/feature/2016/07/27/how-brazil-managing-water-resources-new-report-scd
https://www.tratamentodeagua.com.br/captacao-agua-da-chuva-economia-55-telhado/