A pandemia de COVID-19 causou grandes impactos na sociedade em que vivemos, de forma em que diversas pessoas tiveram o seu estilo de vida afetado diretamente ou indiretamente pelos efeitos da pandemia. E, não só isso, o momento deixou evidente as enormes dificuldades e desigualdades sanitárias no Brasil.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a forma mais eficaz de prevenir infecção pelo vírus é, além da vacinação, as medidas preventivas seguintes: manter ao menos um metro de distância das outras pessoas, usar máscaras bem ajustadas, evitar ambientes lotados e mal ventilados, abrir janelas e portas e manter os locais bem ventilados e lavar as mãos com frequência. 

Infelizmente, sabe-se que muitas dessas medidas não são possíveis para a população em situação de pobreza, pois tanto em suas moradias quanto em transportes e trabalhos encontrarão circunstâncias de risco. E, embora seja um direito humano reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) desde 2010, dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2019) examinados pelo Instituto Trata Brasil mostram que quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável e cerca de 100 milhões não têm serviço de coleta de esgotos no país.

Juntando essas informações, empresas, prefeituras e organizações da sociedade civil vem organizando medidas de viabilização de lavatórios, especialmente em comunidades mais vulneráveis. Em parceria com a Habitat Brasil, os Engenheiros Sem Fronteiras desenvolveram em seis cidades brasileiras a construção de diversos lavatórios comunitários, visando proporcionar a higienização e o saneamento básico para aqueles que mais precisam.

Em parceria com a Habitat, foram instalados trinta e oito lavatórios, distribuídos em quatro das cinco regiões brasileiras. As cidades impactadas pela ação foram Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis, Belo Horizonte, Macapá e João Pessoa. Além disso, também houve o projeto Escovódromo, do Núcleo de Boa Vista, que contemplou a instalação de quarenta e dois lavatórios comunitários. Ao todo, foram instalados oitenta lavatórios em todas as regiões do Brasil.

O processo de desenvolvimento dos lavatórios passa por algumas macro etapas essenciais: escolha do local, definição do modelo do lavatório, construção e instalação do mesmo e determinação do responsável pela sua conservação.

Primeiramente, o núcleo precisa fazer um diagnóstico das comunidades carentes da cidade que necessitam deste recurso e que possuem liderança comunitária, para que haja engajamento com o projeto e responsabilização pela manutenção do lavatório após a saída do núcleo. Segue-se para a escolha dos pontos de instalação dos lavatórios, estes devem ser alocados em vias com maior fluxo de pessoas (geralmente nas ruas de acesso à comunidade) e em locais seguros, iluminados e arejados. 

Em relação ao modelo de lavatório, diversos pontos precisam de atenção:

  • O material deve ser de alta durabilidade, resistente e de fácil higienização: foram desenvolvidos lavatórios de tonéis de óleo reciclados, estruturas em concreto, estruturas metálicas e chapa de compensado, com pias de cerâmica, aço inox, concreto e fibra sintética;
  • O acionamento da água precisa ser seguro: os mecanismos variaram de acionamento com pés ou cotovelos a torneiras com temporizadores;
  • O ponto de abastecimento de água da concessionária pode ser público (obtendo-se autorização dos órgãos legais) ou privado (com autorização do proprietário);
  • Deve-se pensar em solução para o descarte da água cinza: caso não haja possibilidade de fazer ligação na rede pública de esgoto, pode-se usar o círculo de bananeiras;
  • Lembrar-se de inserir no local placas informativas sobre o processo correto de lavagens de mão.

Envolver a comunidade em todo o processo é essencial: durante a fase de decisão do ponto de instalação, na contratação de mão de obra local, na demonstração e inauguração do ponto. É necessário obter o engajamento dos beneficiários para a subsistência do projeto. Além disso, os núcleos relataram que “O projeto funcionou como uma ferramenta de conscientização frente à pandemia do COVID-19, e a importância da higienização correta de mãos nesse processo”.

As ações não pararam após as instalações dos lavatórios. Para garantir que outras cidades também possam ser beneficiadas pelas instalações de lavatórios, os Engenheiros Sem Fronteiras desenvolveram o Manual do Projeto de Pias Comunitárias (Hidropontos). O objetivo é que todo o aprendizado dos lavatórios possa ser replicado nas outras 57 cidades que existem Núcleos do ESF.

Desta forma, o combate ao coronavírus pode ser reproduzido, sendo possível atingir milhões de brasileiros que se encontram em situação de vulnerabilidade, fazendo com que o acesso a água chegue a aqueles que mais precisam.